sábado, 16 de janeiro de 2010

Não há diferença

Autora: Marina Guimarães

O vento baita em meus cabelos conforme a bicicleta cortava o ar, diminuindo a distância até ela. Ah... Ela corria de mim, sua gargalhada sendo trazida até meu rosto como plumas que batem contra algo maciço. Uma vez ou outra ela se atrevia a olhar para trás, para mim. E eram nessas raras ocasiões que eu podia ver o seu sorriso.


Eu estava prestes a alcançá-la quando ela, montada em sua bicicleta cor-de-rosa, virou para a direita e desceu uma rampa em direção a garagem de uma suntuosa casa. Ela ainda acenou para mim quando me viu encarando-a.

- Nos vemos amanhã? – gritou. E sem esperar resposta, entrou por uma porta oculta pela escuridão.

Continuei ali parado, olhando extasiado para a enorme construção que ocupava pelo menos metade do quarteirão.

Uau, pensei. Balancei a cabeça, afastando pensamentos intrusos e voltei a pedalar. Corri na direção contrária, mas a cada metro que avançava, a risada dela ecoava em meu ouvido. Eu quase conseguia vê-la andando em minha frente, era tão estranho...

Não vi a pedra que estava no caminho da minha roda dianteira. A bicicleta capotou, me levando ao chão. Esfolei o braço no asfalto, senti um dos dedos da minha mão direita deslocar. Com dificuldade me levantei, largando o pedaço de ferro retorcido para trás. Não, meu pai não iria gostar nada disso. E não, ele não me daria outra bicicleta, não tinha dinheiro para isso.

Ainda estava andando para casa quando uma picape preta e lustrosa passou devagar por mim. A garota me encarava da janela, baixei o olhar para o chão.

- Por que está se escondendo? – ela perguntou, no mesmo instante em que o carro parou. – Está machucado? Quer uma carona?

A única coisa que doía era meu ego. Ela tinha um motorista e um carro ameaçador, devia andar de bicicleta apenas para acalmar os nervos. Enquanto isso, eu usava o meio de transporte única e exclusivamente com o objetivo de me locomover, até conhecê-la. Desde o dia que a vi pela primeira vez, passei a passear por ali todos os dias, na mesma hora. E agora ela estava me oferecendo carona, como se eu fosse um pobre aleijado.

- Não, obrigado. Estou indo pra casa.

- Eu posso levá-lo. É só me dizer onde mora.

- Não precisa, obrigado – respondi novamente.

- Não é justo, você sabe onde eu moro. – o carro ia lentamente acompanhando meu passo manco.

Arrisquei um olhar para cima e então a reconheci. Sem os cabelos no rosto, era fácil saber de onde conhecia aquele par de olhos azuis como o oceano. Com os fios loiros presos, a pele clara e lisa ficava à mostra, dando graça ao visual simpático. Ela era a filha do patrão de seu pai. Ele a vira uma ou duas vezes quando fora entregar o almoço do pai na empresa em que trabalhava como operador de máquinas Xerox. Melhor explicando, ele tirava cópias dos documentos de toda a empresa. Cargo importante, não?

Mas a garota o olhava com curiosidade também. Provavelmente nunca se lembraria dele. Ela devia ter tanto amigos que não conseguiria colocar todos dentro de sua sala, que não parecia ser nada pequena.

- Eu conheço você? – ela arriscou.

- Provavelmente não – menti.

- Não, conheço sim... Já o vi na empresa de meu pai. Estou certa?

- Provavelmente.

- Prazer, sou Nicole. Como se chama?

- Victor Hugo – respondi, minha face queimando de vergonha.

- Nome bonito. Então, estou indo visitar meu pai. Tem certeza que não quer carona? Podemos encontrar seu pai.

- NÃO! – gritei, assustando-a.

- Tudo bem, então. Podemos só tomar um sorvete?

- Claro...

- Joaquim, pode me esperar aqui? Logo ali na frente tem uma sorveteria.

O carro parou para ela descer. Logo o motorista estacionou o mais perto possível.

- A sorveteria fica um pouco longe, tem certeza que não quer ir de carro?

- Se formos juntos a pé, tenho a chance de saber um pouco mais sobre você – ela sorriu.

Eu a acompanhei no sorriso, e acabamos sentando num banco da praça mais próxima. Quando um vendedor ambulante passou, juntei minhas últimas moedas e lhe comprei um picolé de limão. Ela sequer reclamou da qualidade, apenas aceitou de bom grado, sempre sorrindo.

Deitei sobre a grama molhada da recente chuva e ela deitou sobre mim. Aquela tarde nós conversamos até o cair da noite, até seu celular de última geração tocar. Decidi que também estava na minha hora, afinal minha mãe devia estar louca à minha procura.

Mas qualquer conseqüência valeria à pena. Aquelas poucas horas que passei com ela foram o suficiente para reforçar a imagem que tinha dela. Linda, maravilhosa, humilde, perfeita...

É, amanhã é um novo dia. E nós nos veremos de novo, com certeza.